Cantares
"De cantigas e saudades, vive esta linda Junqueira" resultou de um projeto promovido pela ADRIMAG e desenvolvido pela PELE, entre 2021 e 2022, em Junqueira. O espetáculo criado a partir do património musical e visual, juntou várias gerações em torno das cantadas antigas, trazendo-lhes novos arranjos.
Reúnem-se aqui gravações de cantos e músicas reunidas ao longo dos encontros do projeto “desbravar” . Estes registos não resultam de sessões formais de gravação, tendo surgido de forma espontânea no decurso de momentos de partilha, que foram parte integrante do processo de criação com os grupos das várias freguesias.
Algumas gravações incluem comentários que contextualizam a cantada, cantiga ou canção, por vezes evocando memórias associadas. Os títulos atribuídos não correspondem necessariamente às designações oficiais, seguindo antes indicações presentes na letra ou na forma como foram identificados durante os encontros.
Ontem à meia noite
Cidália Vieira, Codal
Ai ontem à meia-noite (2x)
Ai ouvi cantar e chorei (2x)
ai pela minha mocidade (2x)
Ai que tão novinha deixei (2x)
Da banda de lá do rio
Grupo “desbravar” de Arões e Junqueira
JUNQUEIRA:
Tu de lá e eu de cá
passa o rio pelo meio
Da fama ninguém se livra, da fama ninguém se livra
namorar a rego cheio
Ó meu amor, não me deixes
que eu ainda te não deixei
A folha no ar se vira, a folha no ar se vira
e eu ‘inda me não virei
Da banda de lá do rio
tem meu pai um castanheiro
Dá castanhas em agosto, dá castanhas em agosto,
rosas brancas em janeiro
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Trindade Tavares, ARÕES:
Da banda de lá do rio, ai ai
Meu pai tem um castanheiro, ai ai
Dá castanhas em agosto, ai ai
Uvas brancas em janeiro, ai ai
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ARÕES:
Da banda de lá do rio
Tem meu pai um castanheiro
Dá castanhas em agosto
Uvas brancas em janeiro
Uvas brancas em janeiro
ó ai o la ri lo le la
Balão da minha alma
Flávia Duarte, Arões
E o balão da minha alma
E ó de ruz truz truz.
É como a roda de um carro
Da sala para a cozinha
E ó de ruz truz truz.
Faz abanar o sobrado.
Ai faz abanar o sobrado
Sou rendeira vendo rendas
Ó de ruz truz truz
Do mais fino algodão
Ai do mais fino algodão
Sete metros não me chegam
Ó de ruz truz truz.
P’ra roda do meu balão
Ai p'ra roda do meu balão
Eu cortei um ramalhete
Grupo “desbravar” de Arões
Eu cortei um ramalhete
Eu cortei-o, está cortado
Eu deixei o meu amor
Eu deixei-o, está deixado
Trai olai olarailalai (2x)
Hei-de cantar, hei-de rir
Hei-de ser muito alegre
Hei-de mandar a tristeza
Pro diabo que a leve
Trai olai olarailalai (2x)
O meu amor é que vinha
Quando a lua viesse
A lua já por lá vem
Meu amor não aparece
Trai olai olarailalai (2x)
Fui falar à tecedeira
Grupo “desbravar” de Arões
Fui falar à tecedeira
Pelo buraco da chave
E ela estava ruc tuc tuc
Minha porta não se abre
Minha porta não se abre
Ela não se quer abrir
E ela estava ruc truc truc
E a mãe na cama a dormir
Fui falar à tecedeira
Pelo buraco do cano
E ela estava ruc truc truc
Não me dava ao desengano
Não me dava ao desengano
E não me queria dar
E ela estava ruc truc truc
Agarradinha ao tear
Ó povo deste lugar
Trindade Tavares, Arões
Ó povo deste lugar
Alabantai-bos que é dia
Para fazer o café
Que a madrugada está fria
Ó ai ó larai ó lai
Ó larai ó lai
Ó larai ólarai ô
(...)
Pescador da barquinha
Raquel Bastos, Arões
Ó pescador da barquinha
Volta cá, que estás perdido
Essa mulher que aí levas
É casada, tem marido
Morena, fugiste, deixaste-me só
No alto da serra sem pena nem dó
Morena, fugiste, deixaste-me só
No alto da serra sem pena nem dó
Ora bate bate
Trindade Tavares, Arões
Saia verde, saia verde
Saia verde fica bem
Eu só visto a saia verde
Se for do gosto de alguém
Ora bate bate, já canta o cuquinho
Ora bate bate, no alto raminho
Ora bate bate, já canta o cuquinho
Cucu, cucu, no alto raminho
Ó detrás do laranjal
Augusta Amorim, Lurdes Coelho, Rosa Tavares
Macieira de Cambra
Ó detrás do laranjal
bem te podes ir embora
O meu pai não vai p’ra cama
e eu não posso lá ir fora
Se quiseres falar comigo
Amanhã à mesma hora
Larica verde
Grupo “desbravar” Macieira de Cambra
Ó minha larica verde
Ai agarradinha ao centeio (2x)
Quem tem um amor bonito
ai ri-se de quem o tem feio (2x)
Ri-se de quem o tem feio
ai ri-se de quem o não tem (2x)
De toda a maneira é triste
Ai é melhor não ter ninguém
Canário
Augusta Amorim, Lurdes Coelho, Rosa Tavares
Macieira de Cambra
Canário lindo canário
Canário meu lindo bem (2x)
Quem me dera ter as penas
Que o lindo canário tem (2x)
Adelaidinha
Augusta Amorim, Lurdes Coelho, Rosa Tavares
Macieira de Cambra
Ó ‘delaide Adelaidinha
Tua mãe está-te a chamar
Eu bem sei o que ela quer
Não quer que eu vá namorar
Não quer que eu vá namorar
Ela também namorou
Minha mãe já se não lembra
Do tempo que já passou
Do tempo que já passou
Do tempo que já lá vai
Minha mãe já se não lembra
De namorar o meu pai
Ora bate bate
Grupo “desbravar” Macieira de Cambra
Ora bate bate que andava o cuquinho
Ora bate bate no seu pinheirinho
Ora bate bate que anda o cuquinho
Cucu cucu no seu buraquinho?
Ora bate que andava a poupinha
Ora bate bate no ninho sozinha
Ora bate bate que andava a poupinha
Poupai poupai que eu sou pobrezinha
Ora bate bate já canta o grilinho
Ora bate bate no seu buraquinho
Ora bate bate já canta o grilinho
Grigri grigri no seu buraquinho
Desfolhada
Grupo “desbravar” Macieira de Cambra
À noite depois da ceia
principiam as desfolhadas (2x)
Para brio desta aldeia
só acaba de madrugada (2x)
Esta desfolhadas que aqui fazemos
muito animadas, todos cantaremos
Cultivar as terras, que bela missão
Cá temos o milho p'ra fazer o pão
Vai-te embora, António
Grupo “desbravar” Rôge
Ó José, José
Ó José da aldeia
Já que me prendeste
Leva-me à cadeia
Leva-me a cadeia,
Leva-me a prisão
Ó José, José
do meu coração
É do coração,
É da pedra dura
É como a laranja
Quando está madura.
Quando está madura,
Quando cai ao chão
Ó José, José,
do meu coração
—------
Vai-te embora. António
Vai-te embora, vai
Deixa a rapariga
Que ela não tem pai
Que ela não tem pai
Que ela não tem mãe
Vai-te embora, António
Vai-te embora, vai
Ó prima
Sr. Abel, Rôge
Ó prima, deixastes ir
O passarinho da rede (2x)
Agora choras ó prima
Viradinha para a parede (2x)
Viradinha para a parede
viradinha p'ro balcão
Ó prima, deixastes ir
O passarinho da mão
Já soltaste o passarinho
Já pensavas que era teu
Ele voou para bem alto
E nunca mais te apareceu
Minha mãe case-me cedo
Grupo “desbravar” União de Freguesias de Vila Chã, Codal e Vila Cova de Perrinho
Não cortes a folha ao milho, ó ai
Nem a raiz à carvalha
Ai, nem a raiz à carvalha
Que é o sustento dos homens
ó ai
No ano de pouca palha
Ai, no ano de pouca palha
Olaré, vou-me embora
Olaré digo adeus
Olaré, vou-me embora
Esses olhos são meus
Minha mãe case-me cedo ó ai
enquanto eu sou rapariga
Ai, enquanto eu sou rapariga
O milho sachado tarde, oai
Nem dá palha nem dá espiga
Ai, nem dá palha nem dá espiga
Olaré vou-me embora
Olaré, digo adeus
Olaré, vou-me embora
Esses olhos são meus
Frecha da Mizarela
Glória, Gatão
A frecha da Mizarela
Tão alta está ela
Deixai-a lá estar
Que os fidalgos de Lisboa
por ser água boa,
querem-na levar (2x)
A água lhe respondeu
Tão alta sou eu
lá nestas alturas
Não tendes forças que chegue
Para me levarem pra tanta lonjura (2x)
A água que é da Freita
Ao longe espreita
Da serra ao Mar
E o Caima desceu eito brota
Vai da serra à ria
a sede a matar (2x)
Por aquela serra cima
Gatão, Cepelos
Por aquela serra acima
Vai um gato rebéubéu
Ai ai ai, vai um gato rebéubéu
Hei-de lhe cortar o rabo
P’ro laço do meu chapéu
Ai ai ai, p’ro laço do meu chapéu
Por aquela serra acima
Tanta silva e tanta amora
Ai ai ai, tanta silva e tanta amora
Tanta menina bonita
e o meu pai sem uma nora
Ai ai ai, e o meu pai sem uma nora
Lindos olhos
Gatão, Cepelos
Lindos olhos
Lindos olhos tem António
'inda agora
'inda agora reparei
Se há mais tempo
Se há mais tempo reparava
Não amava
Não amava a quem amei
Moda da Carrasquinha
Gatão, Cepelos
A moda da Carrasquinha
é uma moda assim ao lado
(2x)
Põe-se o joelho em terra
Fica tudo admirado
(2x)
Carrasquinha, sacode a saia
Carrasquinha, levanta o braço
(2x)
Carrasquinha, dá-me um beijinhho
Que eu te darei um abraço
(2x)
(...)
Lá em casa
Cidália Vieira, Codal
O meu pai é Manel cuco (2x)
Minha mãe mãe mãe (2x)
Minha mãe, cuca Maria
Lá em casa tudo é cuco (2x)
Tudo é é é (2x)
Tudo é uma cucaria (2x)
O meu pai é Manel nabo (2x)
Minha mãe mãe mãe (2x)
Minha Mãe, Maria Nabiça
Lá em casa tudo é nabo (2x)
Tudo é é é (2x)
Tudo é uma hortaliça (2x)
O meu pai é Manel porco (2x)
Minha mãe mãe mãe (2x)
Minha Mãe, porca Maria
Lá em casa tudo é porco (2x)
Tudo é é é (2x)
Tudo é uma porcaria (2x)
Esta rua tem pedrinhas
Grupo “desbravar” Junqueira
Esta rua tem pedrinhas
Esta rua pedras tem
Hei-de a mandar varrer
Ou por ti ou por alguém
Hei-de a mandar varrer
Ou por ti ou alguém
Esta rua cheira a rosas
Foi alguém que se casou
Viva o noivo viva a noiva
Viva o pai que os criou
Viva o noivo viva a noiva
Viva o pai que os criou
Canção de embalar
Nazaré Bastos, Arestal, Junqueira
A lua nasceu e cresceu no além
A noite chegou também
Meu bebé vai dormir
Vai dormir e sonhar
Deixa a lua subir no ar
Tu verás, meu amor,
Como é bom sonhos ter
Deus te dê o melhor que houver
Anjo meu, faz ó ó
Porque eu velo por ti
Só aos anjos a lua sorri
(bis)
Lá vem o luar
Grupo “desbravar” Junqueira
Lá vem o luar
Da banda de além
Nós queremos bailar
Não temos com quem
Nós queremos bailar
Não temos com quem
Lá vem o luar
Detrás dos pinhais
Adeus, meu amor,
Até nunca mais
Adeus, meu amor,
Até nunca mais
Semeei trigo no mar
Grupo “desbravar” Junqueira
Semeei trigo no mar (2x)
Centeio à meia leira (2x)
Quando nasceram os homens (2x)
Nasceu fraca sementeira (2x)
Tenho o meu pão amassado (2x)
O meu velho a morrer (2x)
Antes o meu velho morra (2x)
Que o pão fique por cozer (2x)
Domingo*
Grupo Junqueira
Domingo se fores à missa, ó ai
Vai p’ra sítio que eu te veja
Não faças andar meus olhos, ó ai
Em leilão pela igreja
Se tu passares pelo adro, ó ai
No dia do meu enterro
Diz à terra que não coma, ó ai
As tranças ao meu cabelo
Tiro liro*
Maria Emília Vilarinho (Tia Micas), Nazaré Martins (Tia Nazaré), Rosa Lages (Tia Rosa)
Se tu fores lavar ao rio ó ai
tiroliro ó liro ó ai
Lava na pedra do meio ó ai
tiroliro ó liro ó ai ó ai
tiroliro ó liro ó ai
Se a água deitar flores ó ai
tiro liro ó liro ó ai
Apanha, deita-o p'ro cheio ó ai
tiroliro ó liro ó ai ó ai
tiroliro ó liro ó ai
Não volto mais à ribeira*
Grupo Junqueira
Não volto mais à ribeira, tenho medo ao calor (2x)
Empresta-me o teu chapéu, se queres ser o meu amor (2x)
O meu amor é quem usa as chaves ao coração (2x)
Dá-me um abraço, amor, dá-me um aperto de mão (2x)
Dá-me um aperto de mão, mas dá-mo bem apertado (2x)
Sabes que matar desejos, meu amor, não é pecado (2x)
Ó minha pombinha branca, ó meu pombo rolador (2x)
Viva quem anda a rolar, nos braços do meu amor (2x)
Deixa-me que eu levo pressa, buscar a água à ribeira (2x)
Para lavar o meu rosto, que já me chamam trigueira (2x)
Cravos ao teu peito*
Grupo Junqueira
Lá baixo vem o comboio
A chegar à estação
Desembarca o meu amor
Que se chamava João
Cravos ao teu peito,
Ó lindo amor, és tão bem feito
Rosas ao teu lado,
Ó lindo amor, és namorado
Cravos ao teu peito,
Ó lindo amor, és tão bem feito
Rosas ao teu lado,
Ó lindo amor, és namorado
Esta compilação derivou do “desbravar”, , um projeto de experimentação artística, desenhado a partir de processos de mapeamento, registo e reinterpretação do património imaterial resistente no concelho de Vale de Cambra. Iniciado pela PELE em 2024, o projeto esteve inserido nos “Caminhos para a Coesão”, promovido pela Câmara Municipal de Vale de Cambra e executado pela ADRIMAG, ao abrigo do Plano de Ação das Comunidades Desfavorecidas, financiado pelo PRR. Algumas das gravações provêm de um projeto anterior, promovido pela ADRIMAG e desenvolvido pela PELE na freguesia de Junqueira, entre 2021 e 2022, cujas fotografias assinaladas (*) são de autoria de Alexandra Côrte Real.
Os restantes registos visuais são de autoria de João Versos Roldão, fotógrafo que integrou a equipa artística, e que registou os vários momentos que integraram o projeto “desbravar”.