Jamila Rezayee
Sou uma mulher Hazara, do Afeganistão. A minha história começa na casa onde cresci, entre o cheiro do pão quente feito pela minha mãe e a voz suave do meu pai a recitar versos sagrados. Os meus sonhos sempre foram maiores do que o mundo à minha volta parecia permitir. Cada vez que me diziam “tu não podes”, uma pequena luz dentro de mim tornava-se mais forte. Eu queria estudar, escrever, ser mulher e ser livre para pensar.
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A universidade foi uma porta aberta para o futuro, mas atrás dela também existiam medos e limites. Muitas vezes, entre silêncios e olhares pesados, dizia baixinho a mim mesma: “Jamila, tem calma. Este é o teu caminho. Segue, mesmo que às vezes tenhas de caminhar sozinha.” Esses diálogos silenciosos comigo mesma davam-me força para continuar.
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Aqui em Portugal, comecei a sentir o que significa viver com mais liberdade como mulher. Encontrei um ambiente onde há mais oportunidades para estudar, crescer e construir o meu futuro.
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Quando caminho pela cidade, vejo mulheres em todos os lugares — nos parques, cinemas, concertos, festivais culturais, universidades e locais de trabalho — mulheres que estão presentes com tranquilidade, confiança e alegria. Ver essas imagens desperta em mim esperança e possibilidades.
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No Afeganistão, muitas meninas enfrentam grandes restrições e nem sempre podem continuar os estudos ou viver livremente na sociedade. Cresci num contexto onde ser menina significava aprender cedo o peso de certos limites. Mas foi precisamente nesses desafios que minha força interior se formou.
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Por causa da língua, acompanho o meu pai e a minha mãe em muitas situações do dia a dia — no hospital, nas compras e nos serviços públicos. Aqui, os papéis mudaram um pouco, e sou eu que os ajudo a orientar-se num país novo e numa língua que ainda estão a aprender. O esforço deles para se manterem fortes e não nos preocupar, todos os dias, ensina-me o verdadeiro significado de dignidade, responsabilidade e amor. A vida aqui é um recomeço, e tento, sempre que posso, dar-lhes força, carinho e esperança.
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Com o tempo, percebi que a pátria não é apenas um pedaço de terra. Às vezes, a pátria vive no coração das pessoas que amamos — no olhar do meu pai e da minha mãe que sempre me apoiam, na presença dos meus irmãos aqui em Portugal, e na oração do meu esposo que me acompanha de longe, e na fé silenciosa de uma mulher que nunca desiste.
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Hoje, sou uma mulher que se ergueu entre a dor. Criei raízes no meio do exílio, com lágrimas e sorrisos, com medo e coragem, com paciência e resiliência. Aprendi que cada mulher, mesmo longe da sua terra, pode construir um lar dentro de si — um lar feito de voz, de amor e de força.