Claire Sivier
Claire Sivier
07/06/1985
Londres, Inglaterra
Sou mulher, amiga, irmã, filha. Uma pessoa Negra, uma pessoa birracial, uma pessoa queer. Sou uma multiplicidade. Aqui sou imigrante, mas venho de uma segunda geração de imigrantes (pai jamaicano e mãe francesa) em Londres. Sinto que fui moldada pelo ambiente onde cresci, com amigos da Índia, de Marrocos, da Nigéria... Todo o meu bairro era assim. Os meus amigos eram todos filhos de imigrantes. Enquanto jovem, e antes de conhecer a palavra, acho que sempre entendi a interseccionalidade da minha experiência, inclusive com outras pessoas negras. Entendi que sou uma pessoa Negra, mas que também tenho pele clara, por isso a minha experiência é diferente da de outros imigrantes. Entendi, e continuo a entender, a posição privilegiada que tenho em comparação com pessoas negras de pele escura; vi essa diferença de experiência claramente em familiares próximos e, aqui em Portugal, vejo também a posição privilegiada de possuir um passaporte britânico.
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A "Caminhada das Mulheres Negras" surgiu de uma necessidade pessoal. É um grupo informal de mulheres negras e pessoas negras não-binárias que se reúnem para desfrutar da natureza, dos espaços públicos — lugares onde os nossos corpos normalmente não são esperados — e acontece geralmente uma vez por mês, além de organizarmos retiros e outras atividades ao ar livre. Nasci num ambiente com muitas pessoas negras e, quando me mudei para o Porto, senti-me sozinha e fiquei chocada porque não via pessoas negras com regularidade. Mas nós estamos aqui, somos muitos; na altura, a minha experiência era muito moldada e relativa ao sítio de onde vinha em Londres.
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Gosto de quando caminhamos perto da água. Perto do rio, perto do mar, porque é algo muito simbólico. Muitos de nós somos povos atlânticos, e a água é um ponto de ligação entre nós, pois somos de diferentes nacionalidades no nosso grupo. Quando vamos caminhar perto do rio nas Fontainhas, quando caminhamos até à Foz, ou quando passamos por Miramar, esse caminho, essa água, cria uma ligação muito importante, e sinto que ficamos mais calmas. É um grande privilégio, porque o rio aqui no Porto faz parte da identidade da cidade.
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O meu sonho é continuar esta resistência na esfera pública e que mais pessoas se juntem e se sintam em casa no nosso grupo. Sentimo-nos seguras juntas, podemos cuidar umas das outras. Acho que, se não tivesse começado o grupo ou conhecido os meus amigos, já não estaria em Portugal. Quando criei o grupo, estava sozinha, mas foi muito importante abrir o grupo e receber apoio de outras pessoas que também queriam ajudar a desenvolvê-lo. Percebi que precisava de ser aberto. É por isso que agora somos um grupo de voluntários, até porque eu não posso, nem devo, representar todas as pessoas negras.